20 de abr. de 2007


Os pardais

E era a mesma coisa, mas não era mais. Quando os bicos dos pardais se encontraram pela primeira vez nenhum deles sabia que a vida inteira que viria depois daquela noite seria diferente. Os dois, que cresceram em graça e sabedoria juntos, descobriram a amizade ressabiada de quem mais cuida manter-se perto que zelar pelo próprio viver. Quando estavam juntos, eram completos. E sem perfeição, um deles sentia que no completo faltava um pedaço. Cometera o erro de se apaixonar pelo seu amigo de fé. Guardara seu segredo com uma nada usual parcimônia: em um mês, até o bem-te-vi e o pica-pau sabiam de sua paixão.
Era natural que seu amado também soubesse. E como bom amigo que era, decidiu zelar pelo bem da que o amava. Decidiu mostrar os limites, tolher as saliências, aparar as arestas e colocar a situação no lugar. O fogo da passarinha foi se afogando nos escrúpulos. Virou uma quase-brasa. Um quase-cinza, só acesa porque ventava. Até que tudo voltou a ser como era. A amizade reinava soberana sobre o amor derrotado.
Foi quando o desejo aprontou das suas. Numa noite, os amigos cruzaram os bicos. E ambos se acharam realizados. Tudo de mal que acharam que viria, não veio. Nem o medo nem o arrependimento. Veio só o que vem depois de algo que não deve acontecer, as conseqüências. A amizade que havia retornado só durava ainda por esforço mútuo e obstinado de dois pardais que tinham consciência, mesmo antes de se saberem pardais, que precisavam mais da asa amiga que do prazer de roçarem suas penas entre si. Nos seus desencontros, se desencontravam cada vez mais. Até que a mistura de medo e ponderação venceu a vontade, e pararam. E acabaram amigos felizes como jamais seriam se seus bicos se tocassem de novo.

17 de abr. de 2007


O tempo e o espaço

Eu pensei em como andar. Quando vi, minhas pernas tinham me tirado do meu mundo. Eu sentei num poltrona espaçosa, e enquanto anjos lilazes lavavam meus pés, vi a Terra de fora e ela estava parada. Toda aquela imensidão azul parada. Parecia que finalmente a inércia do espaço havia vencido a força que fazia aquela massa girar. Apertei o canto dos olhos e consegui ver que não era só de longe que o mundo tinha parado. De perto também nada se mexia. O guarda de trânsito apitava já havia dois minutos, imóvel. E nenhum carro ultrapassou o sinal. Nem os que estavam com o sinal verde. Aliás, até o sinal parou verde. A caixa do supermercado parou com um saco de batatas nas mãos, o último da compra da cliente, que ficou congelada assinando o cheque que pagaria as compras do mês. Porém, aquele mês duraria pra sempre, e as compras nunca iriam se esgotar.

Longe dali, uma equipe de saltos ornamentais treinava. O saltador flutuava no ar, entre o parafuso e segundo mortal. A menina, que aplaudia o palhaço na rua, ficou imóvel com um sorriso tão cheio que achei que o sol sá tinha brilhado aquele tempo todo porque aquela menina sorria. A tarrafa do pescador também parou no ar. Não iria pegar nada nada, porque mesmo que as gaivotas estivessem voando, elas passariam mais alto. No alto do morro, até a bala ficou levitando no ar. Quando tudo voltasse ao normal (se em algum momento tudo voltasse), antes que alguém pudesse piscar ela estraçalharia a cabeça daquele rapaz que voltava da escola com a namorada. No meio da floresta, um sagüi tinha errado o golpe de vista. Só não havia ido ao chão ainda porque estava flutuando no espaço.
Depois de 15 dias eu descobri que o espaço tinha parado, mas o tempo não. Cada ser daquele meu mundo estava envelhecendo enquanto eu estava fora dele. Cada vida de cada um continuava, cada tempo passava, e comecei a acreditar que tudo estava parado no espaço porque eu não via mais o espaço. E era só o trempo que espalhava por todos os espaços. Quando eu vi o tempo passando e o mundo parado, notei que nunca mais o meu mundo seria o mesmo para mim. Eu sempre sentiria que era alguns dias mais velho que o mundo. Nada seria igual. E o único que me reconheceria seria o tempo. O único que esteve comigo em todos os momentos. No mais, o mundo parara. Ou só eu não o via girar.

21 de mar. de 2007


Escala de cinza

O mundo é preto e branco. O resto é frescura. Tudo que é colorido é mascarado. Bailes de raios compridos e ondas infreqüentes. Firula. O preto é o sólido. O verdadeiro. O único, sem mancha, sem mistura. Sem nada. E o branco é o tudo, o global, o infinito. Quer mais que a luz? Não precisa. Preto e branco são preto e branco. Complementares. Contrastes completos que vão da ordem ao caos, do início ao fim, do tudo ao nada. Eu sou meio preto meio branco, e todos somos. Não somos cores - nem quero ser cor - nem nunca fomos. Somos graduações diferentes de branco no preto, vazio sublime. Somos jatos de ausência, de preto vadio no branco atribulado. E chega de cor. Só se for pra capturar a realidade. Devemos ver o mundo preto e branco. Colores só pra variar de vez em quando.

20 de mar. de 2007


Çinto muito

Algo bastante estranho tem acontecido quando eu me sento em frente à esse Paixão de Bolso para atualizá-lo. Algo que nunca pensei que fosse acontecer. O fato é que, quando começou esse "projeto", eu imaginei que não teria imagens boas pra colocar aqui, e que mesmo assim eu sempre daria um jeito de escrever alguma coisa legal. Até prometi a interlocutores letras de música, poemas consagrados, e outras coisas do gênero. Começaram as postagens, e eu vi que era muito melhor escrever eu mesmo, as coisas que acho, e mais que isso, coisas que sinto. E eu sinto muito.

Sinto muito porque esse projeto está perto de ser esfacelado. Tenho uma grande abundância de imagens, a ponto de poder ficar um mês sem tirar nenhuma e poder atualizar o PdeB todos os dias sem maiores transtornos. Mas não consigo escrever! Não sai nada interessante. Eu penso, até tenho boas idéias, mas na hora de executá-las, é um fiasco total. Não sei se foi mesmo aquilo que escrevi, de ter perdido o personagem. Ou é falta de incentivo, não sei. Sei que o feedback dos comentários confirma essa minha sensação, de que o espaço está ficando ruim. Chato é a palavra. Até porque eu estou achando chato não ter o que escrever e ser obrigado, pelo número mínimo de postagens, a escrever qualquer coisa, como no post passado. Meu caderno com poemas anda às moscas. O blog não teve nada de muito interessante nesse último mês. Ai, ai. Não sou mais o mesmo, não.

17 de mar. de 2007

Milagreiro

Se eu soubesse a palavra que faria tudo acontecer, pode ter certeza que eu falaria. Mas ainda não sou santo. Nem pretendo. Só queria saber como fazer milagres.

15 de mar. de 2007


Exéquias

Como bem citou um grande amigo meu, é hora de recolher os restos mortais da paixão. Colocar num belo vaso o que sobrou da cremação de conversas extenuantes. Talvez enterrar, talvez pôr na estante, talvez aspirá-los como se fossem uma droga, ou ainda regá-los pra ver se brota uma outra paixão. Não sei o que fazer. Pessoas, quando morrem, vai o corpo e fica a memória. Paixões, quando morrem, fica a memória, mas também fica a apaixonante, viva, circulando ao seu lado, exalando seu perfume, sorrindo e dilacerando o resto de otimismo que restava no coração quase já pós-pós-moderno. O que fazer com as cinzas? O que fazer com as cinzas? O que fazer com o que foi a paixão? Pior. O que fazer com o que restou da paixão?
Já não tenho mais gavetas pra guardar tantas reminiscências. Tento esconder o que me faz lembrar pra que eu não fique lembrando o tempo todo. Mas não consigo. A vontade passa corrando pelos meus arquivos de memória abrindo todas as portas, escancarando as gavetas, e quando vejo, todas as lembranças estão no chão novamente, atrapalhando a passagem, obstaculando, mas me fazendo feliz por ter amado de vez em quando, pois nobre é quem ama. Fazendo também o pior fracassado. Mas fazer o que?
Será que é só mesmo uma nova paixão que pode substituir uma antiga? E de novo, o que fazer com as cinzas?

14 de mar. de 2007


0 - Zero à esquerda

Acabo de apagar um início de texto muito ruim. Eu queria fazer algumas frases de duplo sentido sobre estar preparado. Mas não consegui. Acho que a minha competência de escrita escorreu pelo ralo junto com a água dos banhos que eu tomo. Não sei se isso é algo natural, se os rombos de inspiração são mesmo freqüentes, se são previsíveis, não sei. Sei que ontem tentei escrever um poema. Até consegui. Mas ficou medíocre. Medíocre com M maiúsculo. E agora estou escrevendo mais um texto que não aparente estar muito bom.

Vou confessar para vocês. Não foi a minha inspiração que morreu. Quem morreu foi o meu personagem. Era sobre aquele cara que eu escrevia. Aquele apaixonado inveterado, que não via mais nada na frente que não fosse o seu amor. Mas o homem morre junto com a paixão. E mataram a paixão. E mataram aquele homem. O que sobrou foi o alguém que servia de instrumento. Sobraram as mãos que tocam o teclado. Só sobrou isso. O amor foi. A paixão foi. E ficou esse alguém.

Pense numa cabeça. Isso eu tenho. Pense num coração.

Palavras medíocres.

13 de mar. de 2007


Dos jogos de palavras

O triste não está. O triste é. O sorriso talvez esteja. Mas nem sempre. Quem sempre está é a vontade. Mas nunca é. Só o triste é.

12 de mar. de 2007


Apaixonado procura

Apaixonado sozinho procura alguém disposta a receber muito carinho e atenção. Pré-requisitos: pode ser loura, morena, ruiva ou castanha; pele clara, média ou escura; alta, mediana ou baixa; que seja simpática, divertida e goste dos pequenos prazeres da vida, sem desprezar os grandes. Apaixonado procura alguém para ver filme comendo pipoca sob cobertas no inverno, rir dos macacos no parque, assistir comédias e melodramas no cinema, brincar com as mãos, sorrir, beijar de vez em quando, conversar sempre, sair sábado à noite e almoçar em família no domingo. Apaixonado aberto a novas idéias e visões de mundo. Interessadas favor subscrever-se nos comentários dessa postagem, ou em qualquer um dos espaços da grife "Blogs das Paixões", ou enviar e-mail ou recado em sites de relacionamento.

9 de mar. de 2007

Cento e Cinqüenta e Seis

Então chegou o 9 de março. Agora, que ele já está indo embora, dá pra dizer sem parecer piegas que sou um apaixonado por Joinville. Muitos dizem que vai ser difícil encontrar povo mais frio que o daqui, que a cidade é sem graça, que chove demais, que é chata demais e que é agradável de menos. O que eu sei sobre Joinville não é muito. Mas é tudo que eu sei. Porque tudo que eu sei eu aprendi aqui. Foi aqui que chorei pela primeira vez, também foi onde fiz meu primeiro gol. E o último também. Foi onde aprendi a escrever, onde conheci meus melhores amigos. Onde estão todos os inimigos que eu não criei. Foi onde beijei a primeira e a última menina. Foi em Joinville que eu conheci ídolos, que eu cultivei uma rede de contatos. Aprendi a ver princesas na cidade dos príncipes, que nunca recebeu um príncipe. Em Joinville eu fui o que eu era, e virei o que eu sou.
Os mais maledicentes vão me chamar de provinciano, vão me acusar de ter um pensamento pequeno e de não conhecer - nem saber - que tem um mundo pra lá da Serra Dona Francisca, e que do alto do Mirante do Boa Vista não dá, não, pra ver o mundo inteiro. O que eu sei de Joinville é que não foi a cidade que eu escolhi pra viver. Simplesmente nasci daqui, sou daqui, e desejo nunca na minha vida ter de negar que eu vim do nordeste. Do nordeste de Santa Catarina. Da cidade mais bonita do mundo. Que tem as mulheres mais lindas do mundo. E que tem o poder de apaixonar.
Joinville não é a minha cidade. Joinville é a minha vida. É muito provável que eu não more aqui pra sempre. Mas nunca vou embora daqui. Pois até onde eu for - mesmo que não caiba - vou levar desde a curva do arroz até o posto de Garuva no meu coração. E que desde o mais longínqüo arrozal do Vila Nova até o último grão de areia da Vigorelli, toda Joinville, sua terra e seu povo, vão viver na minha memória pra sempre.
Parabéns para a minha cidade. Parabéns para a minha Joinville.