Era natural que seu amado também soubesse. E como bom amigo que era, decidiu zelar pelo bem da que o amava. Decidiu mostrar os limites, tolher as saliências, aparar as arestas e colocar a situação no lugar. O fogo da passarinha foi se afogando nos escrúpulos. Virou uma quase-brasa. Um quase-cinza, só acesa porque ventava. Até que tudo voltou a ser como era. A amizade reinava soberana sobre o amor derrotado.
Foi quando o desejo aprontou das suas. Numa noite, os amigos cruzaram os bicos. E ambos se acharam realizados. Tudo de mal que acharam que viria, não veio. Nem o medo nem o arrependimento. Veio só o que vem depois de algo que não deve acontecer, as conseqüências. A amizade que havia retornado só durava ainda por esforço mútuo e obstinado de dois pardais que tinham consciência, mesmo antes de se saberem pardais, que precisavam mais da asa amiga que do prazer de roçarem suas penas entre si. Nos seus desencontros, se desencontravam cada vez mais. Até que a mistura de medo e ponderação venceu a vontade, e pararam. E acabaram amigos felizes como jamais seriam se seus bicos se tocassem de novo.
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